segunda-feira, 10 de maio de 2010

De repente primavera...


Hoje o dia acordou azul. E por mais que eu tentasse nada conseguia tirar o sorriso do meu rosto. Feito uma boba eu tropeçava pelos corredores e todos pareciam incrivelmente felizes.
A primavera havia chegado, depois de um longo inverno que deixava tudo triste e mórbido, onde os dias pareciam não existir. Eu sentia falta dos raios de sol que me despertavam nas manhas de domingo. Agora pensava comigo mesma como aproveitaria da melhor forma essa nova estação que enchia meu coração de alegria contrastando com as dores que o inverno havia deixado.
A minha primavera começou em uma noite chuvosa. Nossos olhares se cruzaram e se entrelaçaram. Naquele momento eu sabia que a minha vida iria mudar. Aqueles olhos negros me diziam tantas coisas ao mesmo tempo em que eu mal conseguia decifrá-los. Eu mal conseguia acreditar que ele havia percebido que eu estava ali. Há muito eu havia o conhecido, há muito eu perseguia seu olhar... e naquela noite finalmente nossos olhares haviam se aquietado um diante do outro.
Mais tarde sentada ao seu lado eu buscava respostas para sensações que eu sentia. Minhas mãos tremulas buscavam compreender seus gestos. Perto de mim eu mal conseguia fita-lo, minha respiração ficava cada vez mais forte. Busquei incessantemente o autocontrole. Não escolhi muito bem as palavras. Apenas o fiz entender que ,de alguma forma ainda desconhecida para mim, sua companhia me despertava os sentimentos mais conhecidos e universais.
Mesmo me sentindo insegura, eu sabia que se não apostasse todas as minhas fichas naquele momento eu poderia perde-lo mais uma vez. A razão me dizia para agir com cautela, mas o meu coração gritava para não deixá-lo ir, e poucos são aqueles que têm firmeza suficiente para ignorar os pedidos do coração. Eu não sou um desses.
Naquela noite fomos forcados a nos despedir. Ao chegar em casa, um tanto mais calma, me deitei em minha cama e passei então a fazer reflexões sobre as minhas atitudes. Do passado recente fui para o passado distante. Percebi então, quanto tempo da minha vida eu havia desperdiçado em tentativas fracassadas de trocar o incerto pelo certo. Hoje eu percebo que nada é muito certo. E o tempero da vida é justamente essa falta de certeza nas coisas.
A gente não escolhe de quem vai gostar, e nem se esse alguém vai gostar da gente. Podemos até sermos donos de nossos destinos. Mas nossos sentimentos têm autonomia suficiente para mudá-los completamente. Quando a gente vê... estamos num lugar que jurávamos que nunca iríamos, escutando musicas que só criticávamos e vivendo uma vida que jamais imaginamos. É o amor. Que move o mundo, as montanhas, e muda a gente por completo.
O amor que acaba com o inverno e faz a gente se sentir na melhor das primaveras. Que faz a gente se jogar de cabeça no escuro e nos recompensa com a claridade das pessoas que encontramos nessa vida. O amor que simplesmente nos faz feliz.
E foi por isso que naquela noite eu resolvi amá-lo. Eu não tinha certeza do que iria acontecer. E foi essa incerteza que me encorajou ainda mais. Loucura? Não. AMOR.

"Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."
(Cecília Meireles)

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Parque Mundo


Hoje faz dez anos desde daquele dia que sai de minha casa para ver a vida mais de perto. Soltei a mão de minha mãe e fui conhecer o``Parque Mundo ``. De la pra ca não tem sido muito fácil. Passei por muitas situações. Aprendi muita coisa e hoje posso dizer com a segurança de um viajante perdido que a liberdade é apenas uma menina que se esqueceu de amadurecer.
Ao sair de casa pensei que ganharia a tal liberdade, como um passarinho que foge de sua gaiola. Mas esqueci que gaiolas não são ninhos e casas não são gaiolas. Esqueci que os pássaros só saem dos seus ninhos quando estão prontos para voar... Eu mal sabia andar talvez por isso voar tenha sido tão difícil... por isso as quedas tenham sido tão duras. O mundo nos tortura tanto. E eu mal o conhecia, mal sabia de mim mesmo...
Há dez anos eu pensava que a melhor forma de conhecer essa vida era se jogando de cabeça nessa piscina de bolinhas coloridas chamada mundo, experimentando e vivenciando tudo o que me parecia bom e agradável nesse parque de diversões, então eu fui caminhando por caminhos tortos ate chegar ao mesmo ponto. Eu andava em círculos. Hoje vejo que o que eu denominava de `` intensidade `` era na verdade apenas uma travessura. Um jeito de me esconder da realidade que me perseguia buscando respostas sensatas para a minha insensatez.
Depois de anos de `` intensidade `` eu me vi perdido. Parecia ter entrado no trem fantasma da solidão e por mais que eu tentasse não conseguia achar a saída. Eu não sabia o que fazer, pra onde ir... Todos haviam sumido... os amores, os amigos, e até os vendedores em suas barraquinhas. Nada estava no mesmo lugar. Eu teria sonhado durante esse tempo todo? Será que apenas eu estava ali?
Não. Todos estavam no mesmo lugar como sempre estiveram e sempre estarão, apenas a minha visão do parque havia mudado. Eu já não olhava mais o mundo com os olhos de uma criança curiosa que anda por museus com dedos inquietos para tocar no ``não toque``. Agora eu enxergava o mundo com os olhos vagos de quem já brincou em todos os brinquedos. A piscina já não era colorida. A cada ano que havia passado sua cor se perdera mais ate chegar ao ponto que chegou. O mundo ficou preto e branco, ao menos assim o via com meus olhos cansados.
Quando percebi até onde meus impulsos haviam me levado, não vou negar a vontade que senti de voltar para o colo de minha mãe. Saudosamente lembrava de minhas discussões com ela. As brincadeiras com meu irmão mais velho e até mesmo os puxões de orelha do meu pai me faziam falta. São incontáveis as vezes que em meio aos problemas mais sérios pelos quais já passei as palavras de meus pais me vinham à memória. Se me sentia preso deveria ter ficado por opção, porque a prisão de minha casa me parece hoje melhor do que a liberdade de um indigente. Por mais atrativos que os brinquedos parecessem eu já mais deveria ter largado a mão de minha querida mãe.
Hoje aqui estou eu. Mas um dia trancado no parque. Fui posto de castigo pelo próprio orgulho. Sem muita animação ando na roda gigante que roda... roda... roda... mas de repente olho pra baixo e la esta minha mãe. Apressado, desço do brinquedo e corro em sua direção. Ela me abraça e diz: Você acha mesmo que eu ia te deixar sozinho? Eu sempre estive aqui bobinho.
Todos se foram, mas eu fiquei esperando você. Sou sua mãe lembra? Eu jamais te abandonaria. Agora me de a sua e mão vamos pra casa.

"A liberdade não tem qualquer valor se não inclui a liberdade de errar."
(Mahatma Gandhi)

domingo, 2 de maio de 2010

A chuva e o penhasco.


Hoje amanheceu chovendo. A nostalgia toma conta das minhas reflexões... Penso então nos dias que não aconteceram... O peito aperta e uma lágrima emerge para limpar o resto de maquiagem que sobrou do dia. Por que ele não me ligou hoje? Devia estar ocupado. É só podia. Alguém bate na porta e pergunta se eu quero jantar. Preguiçosamente respondo que não. Sem perceber la estou eu... Perdida novamente em meus pensamentos... Se não sabia o que era o amor, então por que disse que me amava? O despertador toca, indicando que está na hora de adormecer para os sonhos e acordar para a vida... Amanha é outro dia... Outro dia pra começar, pra rir... Soluçar, pra esquecer... Pra pensar. Amanha já será tarde e você ainda não ligou. As lágrimas estão secando. Você ainda não ligou. De repente as luzes apagam... No céu vejo o relâmpago, instantaneamente levo as mãos aos ouvidos... Logo o trovão virá... Logo o amor irá. Será que irá resistir? A chuva ganha mais força e eu já estou fraca... O trovão não me assusta.
Ainda sinto esperança... Eu sei que a tempestade pode acabar que a luz pode voltar. Eu continuo esperando você. Mas apenas hoje. Enquanto isso o sono se aproxima... Temo dormir pra não ter que sonhar. Sinto uma leve dor de cabeça que se confunde com as dores do meu coração. Um coração dilacerado... Não precisava ter mentido naquele dia. Eu teria entendido, eu sempre entendo, lembra? Mais uma vez alguém bate a minha porta. Dessa vez o convite é para ouvir historias de terror... Dou um sorriso amarelo e respondo educadamente que não.
O vento forte fecha a porta e abre a janela, respectivamente... Assustada volto a pensar em você. Lembra naquele dia que eu te pedia uma prova de amor? Você não soube responder. Eu já devia imaginar que a rua iria alagar com tamanha tempestade. Eu poderia naquele dia ter desistido pra sempre de nós dois, se tivesse tomado essa atitude talvez o celular já tivesse tocado. Percebo uma goteira no canto do quarto. Você não vai ligar.
Vou dormir. É mais fácil sonhar estando acordada. Não, eu não estou fugindo. Estou apenas aproveitando a chuva que cai. Na prateleira de livros olho a caixa... Você sabe o que ela guarda. Pela ultima vez vou abri-la e olhar o quanto um dia fomos felizes. Você ainda se lembra do nosso penhasco? A chuva ta passando. A chuva passou. Acabou. O celular tocou. Eu dormi.


``Toda despedida é dor... tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia.`` (William Shakespeare)