domingo, 25 de julho de 2010

Apenas um motivo


E todas as manhas no mesmo horário ela abria os mesmos olhos cansados. Olhava para o teto de madeira morta e buscava seu reflexo. Encontrava apenas buracos na madeira. Levantava e agradecia por mais um dia de vida entediante. Nas paredes o filme de sua juventude ela via passar. No espelho um encontro inesperado com si mesma. Todos os dias ela conhecia algo de novo em seu corpo, admirava- se com aquela falta de jeito que espantava até os seus próprios fantasmas. Tomava um banho preguiçoso e amedrontado. Ela era um ser tão covarde que tinha medo até de futuros alheios.
Penteava os cabelos geniosos enquanto reclamava da vida. Mordia os lábios na hora de decidir a maquiagem. Ela sabia que isto era mera formalidade diante de sua falta de expressão. Sua face se assemelhava a uma folha em branco de papel reciclado, pois nesta, as marcas de vidas passadas eram tão visíveis que despertavam certa angustia naqueles que olhavam.
Aos berros ela saia de seu canto. Dava o ar de sua mediocridade na sala e se deparava com os mesmos rostos desprezíveis que a acompanhavam desde a infância. Tomava o café que ela mesma preparava. Lavava as louças enquanto discutia com alguém. E com atraso ela saia de casa. E pontualmente ela chorava todos os dias.
A caminho do destino ela pensava que amanha seria diferente, mas ao chegar ela se deparava com a realidade do hoje, criticava então os mesmos erros de ontem. Por alguns minutos ela pensava em algo que pudesse mudar, algo a fazer diferente, mas as pessoas eram as mesmas e como mudar diante da rotina estática? Nem em cem anos ela se acostumaria com aquilo, porem, nem em mil, ela se encorajaria para mudar aquilo.
Sendo assim ela obedecia as casualidades de sua vida. Respeitava o destino que lhe tinha sido imposto. E por muito tempo ela seguiu assim. Sem pedir explicações aos deuses, reclamando aos murmúrios, e chorando em horários convenientes para não atrapalhar aqueles que não tinham motivo para chorar. Ela não era infeliz, simplesmente, não era feliz.
Foi então que em um único ato de coragem, ou talvez o seu maior ato de covardia, ela entregou-se a morte. Esta meramente física. Pois ela nunca soube o que era vida, ao contrário da morte que já conhecia bem. Pois vivia morta e morta vivia. Nem cem anos, nem mil... em alguns minutos ela encheu o peito de coragem e diante do espelho amigo decidiu se enforcar. Segundos antes ela sentiu medo. E foi na morte que soube o que era vida, pois o primeiro indicio de estar realmente vivo, é temer a morte. Aquele que teme a morte é porque ainda possui algum motivo para viver.




``A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.`` (Friedrich Nietzsche)

4 comentários:

  1. Bem...O q dizer?Um pouco sombrio,né?Mas no fundo um pouquinho de esperança...Realmente só vive quem teme a morte.Espero não conhecer essa menina.Quanto ao estilo,você está caprichando nas frases de efeito e tô adorando a mudança de tema.Sorte,k...Já sou cadeira cativa por aqui,né?

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  2. Sombrio mari. Realmente, nem cem anos ela se acostumaria com aquilo, mas nem mil ela mudaria. É foda. Adorei o texto. bjs

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  3. Sombrio mari. Realmente, nem em cem anos ela se acostumaria com aquilo. É foda. :S adorei o texto. =D

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  4. "e ela se faz do que mais lhe faz mal foge de tudo da vida real acha que o tempo nao vai mais passar vive num jogo e nao sabe jogar tao mal amada como alguem disser o mesmo destino pra mesma mulher ela ja sabe que vai se perder ela nao ama mas ela e você"
    esse é meu comentário achei o texto fodasticamente massa ainda nao tinha lido na teu assim. continua escrevedo assim ta muito bom.

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